O Fórum E-Commerce Brasil 2026 não trouxe uma novidade sobre exportação. Trouxe uma confirmação. O que antes era hipótese de futuro virou comportamento presente. Isso ficou visível em cada conversa de estande e em cada painel sobre operação internacional.
A ShipSmart participou dos três dias do evento, no estande N23. Além disso, subiu ao palco da Apex Brasil, em um painel sobre operação crossborder de e-commerce. As duas experiências, a do estande e a do palco, confirmaram o mesmo padrão sob ângulos diferentes.
Este artigo organiza o que ficou confirmado em quatro blocos. Primeiro, o problema real por trás da exportação brasileira. Segundo, os números que sustentam esse problema. Terceiro, a solução discutida no palco da Apex Brasil. Por fim, os aprendizados práticos que sobraram depois do evento.
Um problema que já não é hipotético
Durante anos, exportar foi tratado como decisão distante para a maioria das empresas brasileiras. Um projeto de médio prazo, adiável, dependente de condições ideais que nunca chegavam por completo.
Essa fase parece ter terminado. As conversas no estande N23 mostraram um padrão diferente do que edições anteriores do Fórum registraram.
A maioria das perguntas não era mais se vale a pena vender para fora. Era como estruturar essa venda sem repetir os erros que travam operações já em andamento.
Esse deslocamento, de dúvida estratégica para dúvida operacional, é o problema real que o evento expôs. Não é falta de vontade de exportar. É falta de estrutura para sustentar a exportação depois da primeira venda.
Os números que sustentam essa mudança
O e-commerce doméstico brasileiro segue em expansão consistente. O setor registrou faturamento de R$ 235,5 bilhões em 2025, alta de 15,3% sobre o ano anterior. Foram 438,9 milhões de pedidos e ticket médio de R$ 536,60. O número de compradores ativos chegou a 94,2 milhões. Para 2026, a projeção é de faturamento de R$ 259,8 bilhões, o que representaria nova alta de 10,3%. ApexBrasil
Esse crescimento doméstico é o que empurra empresas para o próximo degrau. Um mercado interno maduro, com concorrência intensa e margem sob pressão, empurra empresas para fora. Nesse cenário, o mercado externo vira alternativa de crescimento real, não apenas teórica.
Do lado das exportações em geral, os dados do governo também mostram expansão. O volume total exportado pelo Brasil cresceu 6,7% em junho de 2026. Esse resultado é o terceiro maior de toda a série histórica. O crescimento se destacou nas exportações para o Oriente Médio, a América Central e o Caribe, e a Ásia.
Portanto, o cenário macro está alinhado. Cresce o mercado interno, cresce o volume exportado. O que ainda não cresce na mesma velocidade é a capacidade das empresas menores. Elas ainda tropeçam na execução da exportação, não na vontade de exportar.
Onde a exportação brasileira realmente trava
Aqui está o ponto que separa intenção de execução. Levantamento da CNI mostra que 31% das empresas enfrentaram barreiras nos mercados de destino de suas exportações. Entre essas empresas, os obstáculos se distribuem de forma bem definida.
Tarifas de importação aparecem como o principal entrave, apontadas por 67,2% das empresas. Em seguida vêm a burocracia aduaneira no país de destino, citada por 37,8%, e normas técnicas, por 37%. Completam a lista medidas de defesa comercial, por 28,6%, e medidas sanitárias e fitossanitárias, por 25,2%.
Esses cinco pontos não são abstratos. Eles descrevem o que aparece na prática de qualquer operação crossborder. Imposto calculado errado, documentação que falha na alfândega, exigência técnica descoberta tarde demais.
Relatório da própria CNI já catalogou mais de 160 barreiras enfrentadas por empresas brasileiras nos mercados internacionais. Entre elas estão medidas sanitárias e fitossanitárias, regulamentos técnicos e impostos de importação.
O número é alto o suficiente para deixar claro que nenhuma dessas barreiras é exceção. Elas são a regra da operação internacional, não a exceção. Quem não se prepara trata como surpresa o que deveria ser rotina.
Quando perguntadas sobre prioridades de negociação comercial, as empresas citaram dois mercados. Estados Unidos apareceu com 69%, e China, com 34%. Não é coincidência. São os dois mercados com mudanças regulatórias mais discutidas no Fórum.
O tarifaço mudou o cálculo, não criou o problema
Em julho de 2026, os Estados Unidos aplicaram uma tarifa de 25% sobre exportações brasileiras. Dias depois, vieram mais 12,5% de sobretaxa relacionada a trabalho forçado, substituindo a taxa temporária anterior de 10%. Somadas, essas duas camadas chegam a até 37,5% sobre produtos não isentos.
Esse movimento tarifário virou o assunto mais discutido no estande N23 e em boa parte das trilhas do evento. Mas é importante separar duas coisas que costumam se confundir. O tarifaço não criou o problema estrutural da exportação brasileira.
Ele apenas tornou visível, de forma abrupta, um problema que já existia. O problema é a operação sem margem para absorver mudança de custo sem revisar toda a precificação.
Empresas com landed cost calculado com precisão e documentação organizada sentiram o tarifaço como ajuste de planilha. Empresas que operavam sem essa estrutura sentiram como crise.
Nesse sentido, o tarifaço funcionou como teste de estresse involuntário. Ele não inventou a fragilidade, apenas revelou quem já tinha estrutura suficiente para absorver o choque.
A solução discutida no painel da Apex Brasil
No palco da Apex Brasil, o painel sobre operação crossborder reuniu Pierre Jacquin e Rafael Weldo, cofundadores da ShipSmart. Ao lado dos dois esteve Frederico Eidelwein, da Arezzo&Co.
A discussão partiu de uma premissa direta. O fim de regimes de isenção, como o de minimis, não elimina a exportação. Ele obriga a repensar portfólio.
A conclusão prática foi clara. Envio direto e fulfillment local não competem entre si. Eles resolvem o mesmo objetivo com estruturas de custo diferentes. A escolha certa depende de três variáveis por linha de produto. São elas o ticket médio, o giro de estoque e a sensibilidade do consumidor ao prazo.
Produto de ticket alto e giro baixo costuma continuar fazendo sentido em envio direto. A margem absorve o prazo mais longo sem comprometer a conversão.
Já o produto de ticket baixo e giro alto muda de lógica. O consumidor compara prazo antes de decidir. Aí o fulfillment local vira vantagem competitiva direta.
O erro mais repetido, segundo o próprio painel, é tratar essa escolha como decisão única para a empresa inteira. Na prática, a mesma marca pode operar os dois modelos ao mesmo tempo. Cada modelo se aplica à linha de produto certa para ele.
O que fica como aprendizado prático
Reunindo os quatro blocos, um padrão consistente aparece. O mercado cresce, tanto dentro quanto fora do Brasil. As barreiras que travam exportação são conhecidas, documentadas e repetidas ano após ano. O tarifaço de 2026 não inventou fragilidade nenhuma, apenas expôs quem já tinha estrutura e quem ainda não tinha.
A solução discutida no evento não depende de escolher um único modelo logístico. Depende de calibrar o modelo por produto.
O aprendizado mais direto é este, a decisão sobre exportar já foi tomada pelo mercado. O que resta decidir é a estrutura. Tributação calculada antes da venda, documentação validada antes do embarque, modelo logístico definido por linha de produto. Nenhuma dessas decisões deveria vir de intuição geral da empresa.
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